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12 julho, 2020

O Pequeno Príncipe - XII (Antoine de Saint-Exupéry)

XII 


O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.
O Bêbado de O Pequeno Príncipe... - Nova Acrópole Brasil - Escola ...

- Que fazes ai? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.
- Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
- Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.
- Para esquecer, respondeu o beberrão.
- Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.
- Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.
Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.
 E o principezinho foi-se embora, perplexo.
As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.

11 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - XI (Antoine de Saint-Exupéry)

XI


O segundo planeta, um vaidoso o habitava.
- Ah! Ah! Um admirador vem visitar-me! exclamou de longe o vaidoso, mal vira o
príncipe.
Porque, para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores.
- Bom dia, disse o principezinho. Você tem um chapéu engraçado.
- É para agradecer, exclamou o vaidoso. Para agradecer quando me aclamam.
Infelizmente não passa ninguém por aqui.
- Sim? disse o principezinho sem compreender.
- Bate as mãos uma na outra, aconselhou o vaidoso.
O principezinho bateu as mãos uma na outra. O vaidoso agradeceu modestamente,
erguendo o chapéu.
- Ah, isso é mais divertido que a visita ao rei, disse consigo mesmo o
principezinho. E recomeçou a bater as mãos uma na outra.
O vaidoso recomeçou a agradecer, tirando o chapéu.
Após cinco minutos de exercício, o principezinho cansou-se com a monotonia do
brinquedo:
- E para o chapéu cair, perguntou ele, que é preciso fazer?
Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem os elogios.
- Não é verdade que tu me admiras muito? perguntou ele ao principezinho.
- Que quer dizer admirar?
- Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, mais rico, mais
inteligente e mais bem vestido de todo o planeta.
- Mas só há você no seu planeta!
- Da-me esse gosto. Admira-me mesmo assim!
- Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso
interessar-te?
E o principezinho foi-se embora.
As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, ia pensando ele pela viagem
afora.

10 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - X (Antoine de Saint-Exupéry)

X


Ele se achava na região dos asteróides 325, 326, 327, 328, 329, 330. Começou,
pois, a visitá-los,para procurar uma ocupação e se instruir.
O primeiro era habitado por um rei. O rei sentava-se, vestido de púrpura e
arminho, num trono muito simples, posto que majestoso.
Ah ! Eis um súdito, exclamou o rei ao dar com o principezinho.
E o principezinho perguntou a si mesmo:
Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?
Ele não sabia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens
são súditos.
- Aproxima-te, para que eu te veja melhor, disse o rei, todo orgulhoso de poder ser
rei para alguém.
O principezinho procurou com olhos onde sentar-se, mas o planeta estava todo
atravancado pelo magnífico manto de arminho. Ficou, então, de pé. Mas, como estava
cansado, bocejou.
É contra a etiqueta bocejar na frente do rei, disse o monarca. Eu o proíbo.
- Não posso evitá-lo, disse o principezinho confuso.
Fiz uma longa viagem e não dormi ainda...
Então, disse o rei, eu te ordeno que bocejes. Há anos que não vejo ninguém
bocejar! Os bocejos são uma raridade para mim. Vamos, boceja! É uma ordem!
- Isso me intimida... eu não posso mais... disse o principezinho todo vermelho.
- Hum ! Hum ! respondeu o rei. Então... então eu te ordeno ora bocejares e ora...
Ele gaguejava um pouco e parecia vexado.
Porque o rei fazia questão fechada que sua autoridade fosse respeitada. Não
tolerava desobediência. Era um monarca absoluto. Mas, como era muito bom, dava
ordens razoáveis.
"Se eu ordenasse, costumava dizer, que um general se transformasse em gaivota, e
o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha."
- Posso sentar-me? interrogou timidamente o principezinho.
- Eu te ordeno que te sentes, respondeu-lhe o rei, que puxou majestosamente um
pedaço do manto de arminho.
Mas o principezinho se espantava. O planeta era minúsculo. Sobre quem reinaria o
rei?
- Majestade... eu vos peço perdão de ousar interrogar-vos...
- Eu-te ordeno que me interrogues, apressou-se o rei a declarar.
- Majestade... sobre quem é que reinais?
- Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simplicidade.
- Sobre tudo?
O rei, com um gesto discreto, designou seu planeta, os outros, e também as
estrelas.
- Sobre tudo isso?
- Sobre tudo isso. respondeu o rei.
Pois ele não era apenas um monarca absoluto, era também um monarca universal.
- E as estrelas vos obedecem?
Sem dúvida, disse o rei. Obedecem prontamente.
Eu não tolero indisciplina.
Um tal poder maravilhou o principezinho. Se ele fosse detentor do mesmo, teria
podido assistir, não a quarenta e quatro, mas a setenta e dois, ou mesmo a cem, ou mesmo
a duzentos pores-do-sol no mesmo dia, sem precisar sequer afastar a cadeira ! E como se
sentisse um pouco triste à lembrança do seu pequeno planeta abandonado, ousou solicitar
do rei uma graça:
- Eu desejava ver um pôr-do- sol ... Fazei-me esse favor. Ordenai ao sol que se
ponha. . .
- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou
escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem
recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?
- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.
- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A
autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão
todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são
razoáveis.
- E meu pôr-do-sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que
houvesse formulado.
- Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de
governo, que as condições sejam favoráveis.
- Quando serão? indagou o principezinho.
- Hein? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá
por volta de ... por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem
obedecido.
O principezinho bocejou. Lamentava o pôr- do-sol que perdera. E depois, já estava
se aborrecendo um pouco!
- Não tenho mais nada que fazer aqui, disse ao rei.
Vou prosseguir minha viagem.
- Não partas, respondeu o rei, que estava orgulhoso de ter um súdito. Não partas:
eu te faço ministro
- Ministro de quê?
- Da ... da justiça
- Mas não há ninguém a julgar!
- Quem sabe? disse o rei. Ainda não dei a volta no meu reino. Estou muito velho,
não tenho lugar para carruagem, e andar cansa-me muito.
- Oh! Mas eu já vi, disse o príncipe que se inclinou para dar ainda uma olhadela do
outro lado do planeta. Não consigo ver ninguém ...
- Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil
julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro
sábio.
- Mas eu posso julgar-me a mim próprio em qualquer lugar, replicou o
principezinho. Não preciso, para isso, ficar morando aqui.
- Ah ! disse o rei, eu tenho quase certeza de que há um velho rato no meu planeta.
Eu o escuto de noite. Tu poderás julgar esse rato. Tu o condenarás à morte de vez em
quando: assim a sua vida dependerá da tua justiça.
Mas tu o perdoarás cada vez, para economizá-lo. Pois só temos um.
- Eu, respondeu o principezinho, eu não gosto de condenar à morte, e acho que vou
mesmo embora.
- Não, disse o rei.
Mas o principezinho, tendo acabado os preparativos, não quis afligir o velho
monarca:
- Se Vossa Majestade deseja ser prontamente obedecido, poderá dar-me uma
ordem razoável. Poderia ordenar-me, por exemplo, que partisse em menos de um minuto.
Parece-me que as condições são favoráveis ...
Como o rei não dissesse nada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspirou
e partiu.
- Eu te faço meu embaixador, apressou-se o rei em gritar.
Tinha um ar de grande autoridade.
As pessoas grandes são muito esquisitas, pensava, durante a viagem o
principezinho.

09 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - IX (Antoine de Saint-Exupéry)

IX

Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Na
manhã da partida, pôs o planeta em ordem. Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões
em atividade. Pois possuía dois vulcões. E era muito cômodo para esquentar o almoço.
Possuía também um vulcão extinto. Mas, como ele dizia: "Quem é que pode garantir?"
revolveu também o extinto. Se eles são bem revolvidos, os vulcões queimam lentamente,
regularmente, sem erupções. As erupções vulcânicas são como fagulhas de lareira. Na
terra, nós somos muito pequenos para revolver os vulcões. Por isso é que nos causam
tanto dano.
O principezinho arrancou também, não sem um pouco de melancolia, os últimos
rebentos de baobá. Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos familiares
lhe pareceram, aquela manhã, extremamente doces.
E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma,
percebeu que estava com vontade de chorar.
- Adeus, disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
- Adeus, repetiu ele.
Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
- Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão.
Trata de ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a
redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.
- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de
nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz. . .
Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento ...
Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.
Dizem que são tão belas!
Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe ...
Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.
E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos.
Em seguida acrescentou:
- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa...

08 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - VIII (Antoine de Saint-Exupéry)

VIII

Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor. Sempre houvera, no planeta do
pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não
ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à
tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e
o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma
nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar
uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que
sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de
preparar sua beleza, no seu verde quarto.
Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas
pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza
é que ela queria aparecer. Ah ! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara
dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal,
mostrado.
E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando:
- Ah ! eu acabo de despertar. . . Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...
O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!
- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim ...
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira
à flor.
Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando
dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:
- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não
comem erva.
Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.
Perdoa-me ...
Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso
um pára-vento?
"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o
principezinho. é bem complicada essa flor. . . "
À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal
instalado.
De onde eu venho ...
Mas interrompeu-se de súbito.
Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos.
Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes,
para pôr a culpa no príncipe:
- E o pára vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas ...
Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.
Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela.
Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as
flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me
contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter
enternecido.
Confessou-me ainda:
"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas
palavras. Ela me perfumava, me iluminava ... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe
adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores ! Mas eu
era jovem demais para saber amar."

04 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - VII (Antoine de Saint-Exupéry)

VII

No quinto dia, sempre graças ao carneiro, este segredo da vida do pequeno
príncipe foi de súbito revelado.
Perguntou-me, sem preâmbulo, como se fora o fruto de um problema muito tempo
meditado em silêncio:
- Um carneiro, se come arbusto, come também as flores?
Um carneiro come tudo que encontra.
Mesmo as flores que tenham espinho?
Sim. Mesmo as que têm.
Então. . . para que servem os espinhos?
Eu não sabia. Estava ocupadíssimo naquele instante, tentando desatarraxar do
motor um parafuso muito apertado. Minha pane começava a parecer demasiado grave, e
em breve já não teria água para beber. . .
- Para que servem os espinhos?
O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas
eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:
- Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores.
- Oh!
Mas após um silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:
- Não acredito! As flores são fracas. ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se
julgam terríveis com os seus espinhos ...
Não respondi. Naquele instante eu pensava: "Se esse parafuso ainda resiste, vou
fazê-lo saltar a martelo". O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:
- E tu pensas então que as flores ...
- Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com coisas
sérias
Ele olhou-me estupefato:
- Coisas sérias !
Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.
- Tu falas como as pessoas grandes!
Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:
- Tu confundes todas as coisas ...
Misturas tudo !
Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:
- Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou
uma flor. Nunca olhou uma estrela.
Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete
como tu: "Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!" e isso o faz inchar-se de
orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!
- Um o quê?
- Um cogumelo!
O principezinho estava agora pálido de cólera.
- Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e
milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar
compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá
importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas
do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no
meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o
que faz, - isto não tem importância?!
Corou um pouco, e continuou em seguida:
- Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de
estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: "Minha flor está lá,
nalgum lugar. . . " Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas
as estrelas se apagassem! E isto não tem importância!
Não pôde dizer mais nada. Pôs-se bruscamente a soluçar. A noite caíra. Larguei as
ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela,
num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos braços. Embalei-o.
E lhe dizia: "A flor que tu amas não está em perigo... Vou desenhar uma pequena
mordaça para o carneiro... Uma armadura para a flor... Eu..." Eu não sabia o que dizer.
Sentia-me desajeitado. Não sabia como atingi-lo, onde encontrá-lo...
É tão misterioso, o país das lágrimas !

02 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - VI (Antoine de Saint-Exupéry)

VI

Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a
tua vidinha melancólica. Muito tempo não tiveste outra distração que a doçura do pôr-do-sol.
Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manhã do quarto dia:
- Gosto muito de pôr-do-sol. Vamos ver um ...
- Mas é preciso esperar.
- Esperar o quê?
- Esperar que o sol se ponha.
Tu fizeste um ar de surpresa, e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:
Eu imagino sempre estar em casa!
De fato. Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se
deitando na França. Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr-do-sol.
Infelizmente, a França é longe demais. Mas no teu pequeno planeta, bastava apenas
recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crepúsculo todas as vezes que desejavas. . .
Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol ...
- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?
Mas o principezinho não respondeu.

01 maio, 2020

O Pequeno Príncipe - V (Antoine de Saint-Exupéry)

V

Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do Planeta, da partida, da viagem.
Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro
dia, o drama dos baobás.
Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me
interrogou, tomado de grave dúvida:
É verdade que os carneiros comem arbustos?
Sim. É verdade.
Ah! Que bom!
Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem
arbustos. Mas o principezinho acrescentou:
- Por conseguinte eles comem também os baobás?
Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes
como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles
não chegariam a dar cabo de um único baobá.
A idéia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:
- Seria preciso votar um por cima do outro ...

Mas notou, em seguida, sabiamente:
- Os baobás, antes de crescer, são pequenos.
- É fato ! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos?
- Por que haveria de ser? respondeu-me, como se se tratasse de uma evidência. E
foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse
problema.
Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas,
ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas
más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme
de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galinho.
Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando se trata de
uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.
Ora, havia sementes terríveis no planeta do principezinho: as sementes de baobá ...
O solo do planeta estava infestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca
mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes.
E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.
"É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente
acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que
a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distinguam das
roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas
de fácil execução."
E um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas
entrarem de uma vez na cabeça das crianças. "Se algum dia tiverem de viajar, explicou-me,
poderá ser útil para elas. às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para
mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta
habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos. . .
E, de acordo com as indicações do principezinho, desenhei o tal planeta. Não gosto
de tomar o tom de moralista.
Mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos daquele
que se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, faço exceção à minha reserva. E
digo portanto: "Meninos! Cuidado com os baobás!" Foi para advertir meus amigos de um
perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que
tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez:
Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A
resposta é simples: Tentei, mas não consegui.
Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de
urgência.

25 abril, 2020

O Pequeno Príncipe - IV (Antoine de Saint-Exupéry)

IV

Eu aprendera, pois, uma segunda coisa, importantíssima: o seu planeta de origem
era pouco maior que uma casa!
Não era surpresa para mim. Sabia que além dos grandes planetas - Terra, Júpiter,
Marte ou Vênus, aos quais se deram nomes há centenas e centenas de outros, por vezes
tão pequenos que mal se vêem no telescópio.
Quando o astrônomo descobre um deles, dá-lhe por nome um número.
Chama-o, por exemplo: "asteróide 3251".
Tenho sérias razões para supor que o planeta de onde vinha o príncipe era o
asteróide B 612. Esse asteróide só foi visto uma vez ao telescópio, em 1909, por um
astrônomo turco.

Ele fizera na época uma grande demonstração da sua descoberta num Congresso
Internacional de Astronomia. Mas ninguém lhe dera crédito, por causa das roupas que
usava. As pessoas grandes são assim.
Felizmente para a reputação do asteróide B 612, um ditador turco obrigou o povo,
sob pena de morte, a vestir-se à moda européia. O astrônomo repetiu sua demonstração
em 1920, numa elegante casaca. Então, dessa vez, todo o mundo se convenceu.
Se lhes dou esses detalhes sobre o asteróide B612 e lhes confio o seu número, é
por causa das pessoas grandes.
As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo
amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua
voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? "Mas
perguntam:
"Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa?
Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos
às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas
no telhado. . . " elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso
dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"
Assim, se a gente lhes disser: "A prova de que o principezinho existia é que ele era
encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é
porque existe" elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: "O
planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612" ficarão inteiramente convencidas, e não
amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo.
É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes
com as pessoas grandes.
Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números ! Gostaria
de ter começado esta história à moda dos contos de fada. Teria gostado de dizer:
"Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele,
e que tinha necessidade de um amigo..." Para aqueles que compreendem a vida, isto
pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro.
Porque eu não gosto que leiam meu livro levianamente. Dá-me tanta tristeza narrar
essas lembranças ! Faz já seis anos que meu amigo se foi com seu carneiro. Se tento
descrevê-lo aqui, é justamente porque não o quero esquecer. É triste esquecer um amigo.
Nem todo o mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que
só se interessam por números. Foi por causa disso que comprei uma caixa de tintas e
alguns lápis também. É duro pôr-se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez outra
tentativa além das jibóias fechadas e abertas dos longínquos seis anos ! Experimentarei,
claro, fazer os retratos mais parecidos que puder. Mas não tenho muita esperança de
conseguir. Um desenho parece passável; outro, já é inteiramente diverso. Engano-me
também no tamanho. Ora o principezinho está muito grande, ora pequeno demais. Hesito
também quanto a cor do seu traje.
Vou arriscando então, aqui e ali. Enganar-me-ei provavelmente em detalhes dos
mais importantes. Mas é preciso desculpar. Meu amigo nunca dava explicações.
Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através
de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci.

23 abril, 2020

O Pequeno Príncipe - III (Antoine de Saint-Exupéry)

III

Levei muito tempo para compreender de onde viera.
O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não parecia sequer escutar as
minhas. Palavras pronunciadas ao acaso e que foram, pouco a pouco, revelando tudo.
Assim, quando viu pela primeira vez meu avião (não vou desenhá-lo aqui, é muito
complicado para mim), perguntou-me bruscamente:
Que coisa é aquela?
Não, é uma coisa. Aquilo voa. É um avião. O meu avião.
Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Então ele exclamou:
- Como? Tu caíste do céu?
- Sim, disse eu modestamente.
- Ah ! como é engraçado...
E o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que
levem a sério as minhas desgraças. Em seguida acrescentou:
Então, tu também vens do céu ! De que planeta és tu?
Vislumbrei um clarão no mistério da sua presença, e interroguei bruscamente:
- Tu vens então de outro Planeta?
Mas ele não me respondeu. Balançava lentamente a cabeça considerando o avião:
- É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo de longe ...
Mergulhou então num pensamento que durou muito tempo. Depois, tirando do
bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.
Poderão imaginar que eu ficara intrigado com aquela semiconfidência sobre "os
outros planetas". Esforcei-me, então, por saber mais um pouco.
- De onde vens, meu bem? Onde é tua casa? Para onde queres levar meu carneiro?
Ficou meditando em silêncio, e respondeu depois:
O bom é que a caixa que me deste poderá, de noite, servir de casa.
- Sem dúvida. E se tu fores bonzinho, darei também uma corda para amarrá-lo
durante o dia. E uma estaca.
A proposta pareceu chocá-lo:
Amarrar? Que idéia esquisita
- Mas se tu não o amarras, ele vai-se embora e se perde...
E meu amigo deu uma nova risada:
- Mas onde queres que ele vá?
- Não sei ... Por aí ... Andando sempre para frente.
Então o principezínho observou, muito sério:
- Não faz mal, é tão pequeno onde moro !
E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:
- Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe ...

21 abril, 2020

O Pequeno Príncipe - II (Antoine de Saint-Exupéry)

II

Vivi portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia,
cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se
quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para
empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte.
Só dava para oito dias a água que eu tinha.
Na primeira noite adormeci pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra
habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar.
Imaginem então a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha
estranha me acordou. Dizia:
- Por favor ... desenha-me um carneiro
- Hem!
- Desenha-me um carneiro ...
Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um
pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade.
Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele.
Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho
culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a
desenhar jibóias abertas e fechadas.
Olhava pois essa aparição com olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu
me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me
parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não
tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região
habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe:
- Mas ... que fazes aqui?
E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa muito séria:
- Por favor... desenha-me um carneiro ...
Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais
absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo
de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta.
Mas lembrei-me,então,que eu havia estudado de preferência geografia, história,
cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia
desenhar. Respondeu-me:
- Não tem importância. Desenha-me um carneiro.
Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos
desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar:
- Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante
toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Desenha-me
um carneiro.
Então eu desenhei.
Olhou atentamente, e disse:
- Não! Esse já está muito doente.
Desenha outro.
Desenhei de novo.
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode ... Olha os chifres ...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o
desenho ao lado.
E arrisquei:
Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro?
Por quê?
Porque é muito pequeno onde eu moro ...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada !
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
- Não é tão pequeno assim ... Olha ! Adormeceu ...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.O

20 abril, 2020

O paraíso terrestre (Daniel Munduruku)

Há muito e muito tempo, a tribo da grande nação indígena Kaiapós habitava um mundo sem céu. Por isso, não existia também sol, nem lua, nem estrelas, cometas, arco-íris, pássaros. Aqueles habitantes se alimentavam apenas de mandioca e pequenos animais, mas nunca tinham visto, por exemplo, um peixe, pois não havia rios por ali. Tampouco, comiam frutas, pois não havia florestas, sequer arbustos e pequenas moitas. Era um mundo vazio.
O paraíso terrestre
Um dia, um jovem índio estava caçando quando avistou sua presa: um tatuzinho amedrontado. Percebendo a presença do caçador, o animal fugiu, e quanto mais corria, mais o jovem corria atrás. Sem entender, ele viu que o pequeno tatu crescia a cada passo, se tornando um grande animal que, embora grande, continuava amedrontado.
Cansado de correr e já percebendo a proximidade do caçador, o grande tatu cavou rapidamente a terra seca e escura abaixo deles, abrindo um grande buraco, no qual desapareceu.
À beira da cova, o índio ficou observando para se certificar que o animal fugiu mesmo. Não aguentando sua curiosidade, decidiu descer pelo buraco e, com surpresa, percebeu que ao final do caminho, havia um ponto luminoso. Sem sinal do tatu, resolveu seguir aquele ponto de luz.
Por muitos anos, aquele jovem índio se lembraria do que viu quando chegou ao final do túnel. Viu aos poucos o ponto de luz se transformar em uma grande abertura e um novo mundo se revelou: um mundo com um céu tão azul que os olhos acostumados com a escuridão ardiam. Um Sol tão luminoso que o índio temeu se queimar por um instante.
E, um lindo arco-íris, cujas cores estavam nas penas de algumas aves e nas asas de borboletas que enfeitavam o céu. Uma grande mata crescia nas margens de um grande rio, de onde pulavam peixes de vários tamanhos e cores. Perto dele, alguns animais caminhavam sem medo, como tartarugas, macacos, capivaras e preás.
O jovem índio ficou admirando aquele novo mundo e notou que o Sol se movia, fugia dele, até desaparecer. A tristeza tomou conta do jovem, que pensou que tudo aquilo havia acabado com o Sol. Mas, seu deslumbramento voltou assim que viu surgir no céu uma grande pedra branca, bem redonda e brilhante. Era a Lua que surgia com mais um milhão de estrelas que piscavam, e brilhavam, e iluminavam o céu e a terra. Algumas chegavam bem perto dele, como se fossem pequenos insetos luminosos.
Correndo mais rápido do que nunca, o índio voltou à aldeia para contar sobre aquele novo mundo. O pajé, homem mais respeitado na tribo, autorizou que todos seguissem aquele caminho aberto pelo tatu. Os índios foram, um a um, descendo por uma longa corda até pisar no chão daquele que seria seu novo lar, o Mundo Novo.

Fonte: https://escolaeducacao.com.br/lendas-indigenas/

19 abril, 2020

O Pequeno Príncipe - I (Antoine de Saint-Exupéry)

I

    Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.
    Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão." Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:
    Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.
    Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"
    Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:
    As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática.
    Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.
    Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por assim dizer, por todo o mundo.
    E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.
    Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes.
    Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.
    Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável.

18 abril, 2020

Menina Bonita do Laço de Fita (Ana Maria Machado)

desenho de rosto de negras - Pesquisa Google | Arte com cabelo ...
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Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas.
Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.
E pensava:
- Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela...
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
- Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina...
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela.
Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda fazendo xixi.
Mas não ficou nada preto.
- Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:­
- Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e... Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
- Artes de uma avó preta que ela tinha...
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até
com os parentes tortos.E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina,
tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda
a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha.
Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava alguém que perguntava:
- Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?
E ela respondia:
- Conselhos da mãe da minha madrinha...

13 abril, 2020

O caso do bolinho (Tatiana Belinky)

http://artperfectnail.blogspot.com/2013/05/?m=1

Naquele dia o avô tinha pedido para a avó fazer um bolinho gostoso para os dois comerem. A vó misturou farinha com creme de leite, formou um bolinho bem redondinho e pôs no forno para assar.
O bolinho – hummmmmm – ficou gostoso e cheiroso, mas quente não poderia se comer, por isso a avó colocou na janela para esfriar.
Com aquela brisa da tarde, a maravilha de mundo pela frente, tantas coisas para descobrir e viver, o bolinho decidiu usar a esperteza e rolou fora da bandeja…
Rolou e rolou, mas logo encontrou a lebre que o farejou pelo bom gosto:
- Bolinho, bolinho eu vou comer você…
E o bolinho disse que antes que ela o comesse, ele cantaria sua canção:
- Eu sou um bolinho redondo e fofinho de creme recheado na manteiga assado. A vó não me pegou, o vô não me pegou e você não vai me pegar.
Zapt! O Bolinho de novo rolando para longe da lebre.
Rolou, rolou, mas logo encontrou o lobo que o farejou pelo bom gosto:
- Bolinho, bolinho eu vou comer você…
E o bolinho disse que antes que ele o comesse, ele cantaria sua canção:
- Eu sou um bolinho redondo e fofinho de creme recheado na manteiga assado. A vó não me pegou, o vô não me pegou e você não vai me pegar.
Zapt! O Bolinho de novo rolando para longe do lobo.
Logo depois, o bolinho encontrou a raposa e também começou a cantar. A raposa imediatamente disse:
- Que linda voz, que suave canção.
O bolinho ficou impressionado com o elogio. A raposa continuou:
- Pena que sou quase surda, mal posso ouvir… Por que você não pula aqui no meu focinho para cantar, senhor bolinho?
O bolinho muito esperto, mas muito mais vaidoso, pulou, e a raposa, astuta como só ela, nem esperou a canção começar para nhact. A raposa comeu o bolinho e acabou com a fome que roncava na sua barriguinha.

Fonte: https://www.google.com/amp/s/escolakids.uol.com.br/amp/portugues/o-universo-encantado-e-multicolorido-de-tatiana-belinky.htm